A eleição terminou. Os votos foram contabilizados, o resultado proclamado e a vontade da maioria prevaleceu.
Todavia, o
encerramento do processo eleitoral, infelizmente, não significou o fim de
conflitos – ditos políticos – que permanecem nestes últimos dias.
Os
acontecimentos desta semana revelam uma preocupante dificuldade de convivência
com as diferenças. De convivência com a democracia.
Eu quero
referir a dois contextos que ganharam visibilidade: primeiro, as ameaças de
demissão e as represálias contra trabalhadores em razão de suas escolhas
eleitorais; segundo, a divulgação de listas que estimulam o boicote a empresas,
restaurantes, comércios, indústrias, todos identificados como apoiadores do
presidente eleito.
São
situações bem distintas, inclusive do ponto de vista jurídico, mas que possuem
algo em comum: a tentativa de transformar a divergência política em instrumento
de punição econômica.
Vamos lá,
vou tratar primeiro do assédio eleitoral. Durante a campanha, o Ministério Público do Trabalho recebeu
denúncias de que empregadores, que teriam utilizado sua posição hierárquica, teriam pressionado empregados, até condicionado ganhos em razão de preferências eleitorais.
E, mesmo
depois de passadas as eleições, o Ministério Público do Trabalho permaneceu
recebendo denúncias. Até a terça-feira, 27 de outubro, recebeu mais de 2300
denúncias de assédio eleitoral em todo o país.
Chama
atenção, neste momento, os movimentos e incentivos a empresários para que
demitam os seus trabalhadores, identificados como eleitores de Lula.
O empregador tem o direito de manifestar suas posições e convicções políticas
como qualquer cidadão. Mas não pode utilizar o poder que exerce em relação à
força do trabalho, ou da sua posição hierárquica, para constranger ou punir
empregados que fizeram escolhas diferentes.
A
Constituição Federal, é bom relembrar, assegura a liberdade de consciência, de
pensamento e de manifestação política. E esses direitos não desaparecem quando
alguém assina um contrato de trabalho.
E a escolha política pertence ao cidadão, e não ao seu empregador.
Bem, mas há
outro fenômeno que merece igual atenção.
Em diferentes cidades do Rio Grande do Sul surgiram relatos de listas
que identificam empresas, restaurantes, estabelecimentos comerciais e
profissionais que sejam afeiçoados ao Presidente Lula, acompanhadas de
incentivos para que consumidores deixem de contratar seus serviços ou adquirir
seus produtos.
É importante
distinguir a liberdade individual de escolher onde consumir das campanhas
organizadas de exposição, hostilidade ou perseguição por razões políticas.
Vamos lá: ninguém é obrigado a frequentar determinado estabelecimento. Mas,
quando a divergência política passa a motivar estas listas de exposição
pública, intimidações ou ataques à reputação de pessoas e empresas, surgem
questões que ultrapassam a simples liberdade de consumo.
E há uma
consequência que parece ignorada por quem está por trás destas iniciativas,
bastando pensar que uma empresa não é formada apenas por seu proprietário. Ela
reúne trabalhadores, fornecedores, prestados de serviços e famílias que
dependem daquela atividade econômica, e essas pessoas podem – e seguramente têm
– opiniões políticas diferentes.
Então, qual
é a lógica de tentar prejudicar economicamente um estabelecimento em razão da
preferência política de seu proprietário, sem considerar os possíveis efeitos
sobre todos aqueles que dependem daquela atividade?
Nesta
semana, o município de Nova Petrópolis, na serra gaúcha, em conjunto com a
Associação Comercial e Industria, com a Câmara de Dirigentes Lojistas e a
Associação das Malharias de Nova Petrópolis e do município de Picada Café,
divulgaram uma nota pública repudiando atos de discriminação, exposição e
perseguição de pessoas e empresas por suas posições políticas. O documento manifesta preocupação com listas
que incentivam esses boicotes, destacando seus efeitos sobre famílias, empregos
e a comunidade.
A nota de
Nova Petrópolis nos lembra que a convivência entre pessoas com diferentes
convicções é parte da vida em sociedade e que a atividade econômica não está
isolada das relações humanas que a sustentam.
E é aqui que
eu chego ao ponto que une estas duas situações: assédio eleitoral e boicotes
eleitorais.
De um lado,
trabalhadores que podem sofrer represálias porque votaram em determinado
candidato. De outro, empresários e estabelecimentos que passam a ser expostos
publicamente por suas identificações políticas.
Em ambos os
casos, a divergência eleitoral repercute sobre o trabalho, a renda e as
relações econômicas.
Mas ameaças,
constrangimentos, discriminações e perseguições exigem uma análise diferente,
inclusive quanto às responsabilidades jurídicas de seus autores.
Lembremo-nos:
a democracia não pressupõe unanimidade. Ao contrário, pressupõe a possibilidade
de discordar, de criticar, de defender projetos políticos distintos e de
conviver com pessoas que fizeram escolhas diferentes. E a vitória de um
candidato não retira dos seus adversários o direito de oposição. Da mesma
forma, a derrota eleitoral não autoriza represálias contra aqueles que
escolheram o vencedor. Essa regra precisa valer para todos, independentemente
de partido ou posição ideológica.
O resultado
das urnas define quem exercerá o governo. Não define quem merece trabalhar,
empreender, consumir, ser respeitado ou participar da vida em sociedade.
Talvez a
reflexão mais importante deste momento seja justamente esta: a liberdade
política não pode ser protegida apenas durante a votação. Ela precisa continuar
sendo respeitada depois que as urnas se fecham. A democracia não se
esgota no direito de escolher nossos governantes. Ela também depende da
capacidade de reconhecer, em quem pensa diferente, um cidadão titular dos
mesmos direitos.
(*) Texto base para minha interlocução no Programa Debate Regional da Rádio Pelotense, nesta sexta-feira, dia 30/10.

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