Às vésperas do Dia das Crianças, que também é o dia de Nossa Senhora Aparecida – mãe protetora do lar brasileiro – fui surpreendida por um sentimento que, embora não seja propriamente novo, desta vez me fez pensar um pouco mais: a saudade dos filhos.
Não exatamente a saudade de quem está longe, porque a distância física não significa, necessariamente, ausência. Mas uma saudade que se mistura à passagem do tempo, às lembranças da infância deles e à percepção de que a vida, silenciosamente, vai modificando os lugares que ocupamos uns na vida dos outros.
Trago para a minha realidade: meus filhos cresceram. E, crescendo, seguiram seus caminhos. Saíram de casa, estão construindo suas rotinas, estabelecendo seus espaços, fazendo suas escolhas. Eu sei que é assim que deve ser. E que bom que está sendo! Afinal, não devemos criar os filhos para que permaneçam conosco – e nós, eu e o marido, não criamos os nossos para isso. Nosso desejo, sempre, foi de que pudessem viver suas próprias vidas.
No entanto, quando esta fase chega, falamos – e quase todas as pessoas falam – em ninho vazio.
Essa expressão sempre me provocou certa estranheza. Como pode estar vazio um ninho se os filhos permanecem tão presentes na vida dos pais? Se permanecem tão presentes na minha vida? Seguem habitando meus pensamentos, preocupações, alegrias e até mesmo alguns projetos.
Creio que o equívoco esteja em buscar compreender esse vazio apenas pela ausência física. Vejamos: os filhos não deixam de estar conosco só porque não ocupam mais os quartos da casa. Eles permanecem, estão presentes em outra dimensão. Uma dimensão que não depende da presença diária, da conversa à mesa ou do barulho da porta que se abre ou fecha. A presença e a permanência estão nos vínculos que construímos.
E há algo mais que me fez pensar: o ninho vazio talvez esteja mais relacionado com aquilo que fomos, ou com aquilo que construímos como casal, do que com a ausência dos filhos em si.
Durante muitos anos, a vida a dois foi compartilhada intensamente com eles. Nossa organização doméstica, nossos horários, nossas preocupações e boa parte de nossas decisões estiveram atrelados à sua existência. Sempre fomos um casal, mas um par que exercia, diariamente, a parentalidade.
De repente, o tempo passou e a dinâmica se modificou. Não deixamos de ser pais, tampouco deixamos de ser o casal que éramos. Porém, agora, precisamos descobrir como viver uma nova configuração em que os filhos, embora presentes, já não são o centro da organização cotidiana da casa.
Por isso, parei para pensar que a ideia do ninho vazio – e a própria saudade – seja menos sobre a ausência física dos filhos e mais sobre a falta de quem nós éramos quando eles ainda moravam conosco. E como o tempo não volta, mas apenas nos leva para a frente, precisamos compreender e valorizar o que permanece entre o casal quando a rotina construída em torno dos filhos se transforma.
Estar a sós e voltar a ser dois são coisas bem distintas. Não somos mais os mesmos de antes, nem mesmo o que éramos antes dos filhos; agora, carregamos a experiência de termos sido quatro e precisamos, novamente, ser dois – sem jamais deixar de ser pai e mãe.
O ninho não está vazio. Está diferente. E foi exatamente pensando nisso que percebi que a saudade que sinto não é apenas dos filhos pequenos ou adolescentes, mas também de um tempo em que a vida tinha outra configuração, outro ritmo, outros desafios e demandas.
Eu não quero aquele tempo de volta, o que não me impede de sentir saudade. O que preciso é reconhecer que ele foi importante e continua em nós, mesmo que agora estejamos um pouco mais sós.
Neste Dia das Crianças, penso nos meus filhos adultos e nas crianças que foram um dia. Mas também penso no casal que fomos enquanto os criávamos e naquele que continuamos a ser, ainda que diferentes.
O tempo... ah, o tempo! Ele não leva tudo consigo: ele transforma.
O ninho mudou, sim. Mas o afeto e o amor, não.
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(*) Escritos de Sábado, no Domingo! As tarefas profissionais desta semana se estenderam mais do que o programado. Por isso, os Escritos de Sábado saem no Domingo. E há outra justificativa também: o texto que escrevi faz um link com o Dia de Nossa Senhora Aparecida e o Dia das Crianças no Brasil.


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