Todos nós somos feitos de narrativas.
Contamos histórias frequentemente: sobre quem somos, sobre os
lugares por onde passamos, sobre as nossas relações, escolhas, acertos e erros.
Fazemos isso individualmente, mas também de forma coletiva.
Famílias, instituições, grupos profissionais e, evidentemente, a política
constroem o tempo todo suas próprias narrativas.
Isso é natural, ordinário, e não há qualquer problema nisso.
Narrar nada mais é do que uma maneira de organizar a realidade. Nós não
conseguimos reproduzir, integralmente, tudo o que nos acontece. Então,
selecionamos episódios, estabelecemos relações entre eles, elegemos o que
consideramos relevante e atribuímos significado aos acontecimentos.
O problema, contudo, aparece quando esquecemos que narrativa
e fato não são a mesma coisa.
Vejam: o fato é o que acontece; a narrativa apenas procura
explicar o fato.
Ela pode enfatizar determinadas circunstâncias, minimizar
outras, estabelecer causas, distribuir responsabilidades e até reorganizar,
retrospectivamente, o significado dos acontecimentos.
Mas as narrativas não apagam os vestígios deixados pelos
fatos. Os rastros, as evidências, as marcas do fato — isso não pode ser
destruído por narrativas.
É bem verdade que a repetição narrativa tem uma enorme
capacidade de produzir aparência de verdade. Quando uma mesma versão é repetida
muitas vezes, por muitas pessoas ou em diferentes espaços, podemos começar a
recebê-la não mais como uma interpretação, mas como se fosse o próprio
acontecimento. Contudo, repetição não é prova.
Por isso, nas narrativas, é fundamental questionar não apenas
quem diz, mas também em que se baseia o que está sendo dito. É no confronto
dessas respostas que as contradições começam a aparecer.
Nos ambientes profissionais e institucionais ocorre algo
semelhante. Após mudanças de pessoas, grupos ou gestões, pode surgir a ideia de
que o que existia antes estava errado, era desorganizado ou precisava ser
profundamente modificado. Porém, se aquilo que era apontado como inadequado
continua sendo realizado, se projetos permanecem, práticas são mantidas e
iniciativas reaparecem — às vezes apresentadas pelas próprias instituições como
exemplos positivos —, uma pergunta se impõe: se estava errado ou era
inadequado, por que continua sendo feito?
Nada disso significa, necessariamente, má-fé. As pessoas
mudam de opinião, as relações se alteram, as instituições reconhecem acertos e
a experiência pode demonstrar que determinadas escolhas eram melhores do que se
imaginava inicialmente.
Mas existe uma questão de coerência que merece ser observada.
E, na política, há um espaço privilegiado para exercitar esse olhar.
Às vésperas de uma eleição, somos convidados diariamente a
ouvir versões sobre governos, adversários, realizações, fracassos,
responsabilidades e promessas para o futuro. Isso faz parte da democracia. A
disputa política envolve diferentes interpretações da realidade.
O eleitor, entretanto, não precisa ser apenas um receptor
dessas versões. Pode confrontá-las com aquilo que é verificável.
Quando alguém afirma que determinada coisa nunca foi feita,
podemos procurar os registros. Quando reivindica uma realização, podemos
verificar quando ela começou, quem participou e quais decisões a tornaram
possível. Quando aquilo que ontem era duramente criticado passa a ser defendido
hoje, podemos perguntar o que mudou.
E esse cuidado precisa valer para todos.
Talvez o exercício crítico mais difícil não seja questionar o
discurso de quem pensa diferente de nós — isso costuma ser fácil. O mais
difícil é submeter ao mesmo rigor o discurso das pessoas com quem concordamos.
Por outro lado, vejam, a narrativa política não é sinônimo de
mentira. Toda proposta parte de uma determinada interpretação da realidade,
estabelece prioridades e oferece explicações.
A questão é saber até onde essa interpretação resiste quando
confrontada com elementos que podem ser objetivamente verificados.
E hoje dispomos de instrumentos que tornam esse exercício
muito mais acessível: discursos antigos podem ser recuperados, entrevistas
permanecem disponíveis, documentos públicos podem ser consultados. Votações,
decisões, projetos, fotografias, vídeos e publicações em redes sociais — tudo
isso deixa uma memória que nem sempre acompanha a versão narrativa que é
produzida.
Recuperar o hábito de checar, de verificar se um fato narrado
aconteceu de verdade, se há elementos que confirmam as narrativas e se o
discurso é compatível com o que foi e continua sendo feito: isso é uma
necessidade. E, se houver contradição, buscar uma explicação para ela.
Não se trata, por óbvio, de desconfiar de tudo. Trata-se de
não aceitar ou confiar em tudo só porque está sendo repetido muitas vezes com
aparência de fato.
Esse me parece um exercício particularmente importante nos
dias que antecedem uma eleição — e que não deveria terminar depois dela.
Porque serve para a política, para as instituições, para os
ambientes profissionais e para todas as nossas relações cotidianas.
Lembremos: narrativas são poderosas. Podem persuadir,
emocionar, construir reputações — e também desconstruí-las.
Os fatos, porém, costumam ser persistentes.
Não podemos fazê-los desaparecer apenas porque deixaram de
ser momentaneamente convenientes. Eles permanecem. Ficam conservados em
documentos, nas práticas, nos resultados, nas decisões, nas imagens e na
memória coletiva, mesmo quando alguém tenta substituí-los por uma versão mais
confortável.
É aí que nasce a
postura crítica: não a que desconfia de tudo, mas a que não abdica de pensar.
Ouvir as narrativas é parte da vida democrática. Conferir seus fundamentos é um
dever de todos nós.
Quando os fatos desmentem as narrativas, não basta escolher a
versão que mais nos agrada. É preciso ter honestidade para rever a própria
posição — e responsabilidade para não transformar mera preferência em verdade.
Pensemos sobre isso antes de colocar o voto na urna!


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