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sexta-feira, setembro 18

Uma missa inclusiva: porque pertencer é poder estar sem precisar deixar de ser quem se é

Nesta semana, em que talvez esperassem que eu trouxesse uma análise sobre as últimas decisões do STF, foi outra  a notícia que me chamou profundamente a atenção.  Ela trazia o tema da inclusão, que me interessa, particularmente, como professora e como pedagoga, mas que deve interessar a todos, porque nos convida a pensar sobre a inclusão para além dos espaços em que habitualmente discutimos.

É que quando nos falamos em inclusão quase imediatamente pensamos na escola, na universidade, no setor educacional. Pensamos na acessibilidade, nas adaptações pedagógicas, em acompanhamento, acolhimento para o aprender em formatos diferentes.

Todavia, a vida não acontece apenas na escola, dentro dela, ou na universidade. A vida, ela acontece na praça, no cinema, no supermercado, no restaurante, no trabalho, no teatro, nos espaços de lazer e, também, nas igrejas.

E foi justamente a iniciativa da  Diocese de Montenegro que me chamou atenção: a celebração religiosa para acolher pessoas neurodivergentes, pessoas com deficiências e suas famílias.

A chamada missa inclusiva teve adaptações, simples, mas que fizeram muita diferença. O volume do som foi reduzido, a iluminação ficou mais suave, uma intérprete de Libras estava lá, e havia a liberdade para que as pessoas pudessem levantar e circular durante a celebração.

Tudo isso pode parecer pouco, mas para as famílias, significou a diferença entre poder estar e precisar ir embora. Entre participar da celebração, ou precisar ficar longe dela. Entre sentir-se pertencente e perceber, uma vez mais, que aquele espaço – o da Igreja, na missa – não foi pensado para um seu familiar .

É claro que não faltou que dissesse que a verdadeira inclusão não dependeria da criação de um espaço próprio e específico em que as pessoas neurodivergentes fossem acolhidas, porque elas deveriam ser acolhidas nas celebrações com todas as demais pessoas.

Em princípio, sim. É interessante pensar assim.

Um sociedade verdadeiramente inclusiva não deveria precisar separar as pessoas para poder acolher.

Mas há uma distância bem importante entre o mundo que desejamos e aquele que ainda temos. E há, sim, determinados ambientes que apresentam barreiras talvez imperceptíveis para alguns, mas que podem ser extremamente difíceis para outros.

E a celebração religiosa, católica, a missa, tradicional, é um desses espaços.

Relembremos: nas missas, há música. Microfones.  Cânticos. Vozes que se alternam. Momentos em que muitas pessoas falam ou cantam ao mesmo tempo. Depois, silêncio. Sinos. Movimentação. Luzes. Pessoas próximas umas das outras. Além disso, há as expectativas sociais e rituais: permanecer sentado, levantar, sentar novamente, ajoelhar-se, ficar em silêncio, não circular pelo ambiente.

A maioria das pessoas faz isso tudo de maneira ordinária e natural, vivem a experiência da missa com tranquilidade.

Porém, para uma pessoa com determinadas sensibilidades sensoriais, ou quaisquer outras necessidades específicas, e essa ritualidade  transforma a experiência religiosa da missa em algo extremamente desconfortável, ou inviável.

Não fosse isso suficiente, eu diria que há também a barreira do olhar. A criança ou o jovem, ou até mesmo um adulto, levanta. Quer caminhar, vocaliza durante um momento de silêncio, tem comportamentos ou gestos repetitivos, emite uma reação inesperada a determinado som... E o olhar, aquele olhar, ele vem. 

Nesse particular, , a reportagem sobre a celebração em Montenegro, levada a efeito pelo Padre Oséias Canisio Dreyer,  trouxe o relato de uma mãe, que conta ter se afastado da Igreja, e assim permanecido, porque os sons e as estereotipias do filho incomodavam outras pessoas.

Vejam só, a família não estava formalmente impedida de ingressar na Igreja e participar da missa. A porta estava aberta para quem quisesse, mas ainda assim, a família não conseguia estar ali.

E isso, nos ensina algo muito importante sobre inclusão: não basta permitir a entrada, não basta deixar a porta aberta, não basta fazer discurso de acolhimento. É preciso criar condições de permanência, participação e pertencimento.

E aqui eu trago a minha experiência de educadora, de professora, refletindo que uma escola ou uma universidade deve receber um aluno com deficiência, ou neurodivergente, mas ainda assim não ser inclusiva. A matrícula garante o acesso. A porta está aberta. Mas quem garante que esse estudante conseguirá aprender, participar, conviver e permanecer.

E fiquei pensando que a experiência da missa de Montenegro deveria ser transportada para todos os demais espaços sociais. Quem consegue estar neles? Quem deixou de vir? E, principalmente, o que existe nestes ambientes que poderíamos modificar para que mais pessoas consigam participar.

Essa pergunta, e as providências em resposta a elas, mudam completamente a nossa compreensão sobre inclusão, porque passamos a pensar sobre o que os ambientes podem/devem fazer para colher diferentes pessoas.

A experiência da diocese de Montenegro torna evidente e visível as barreiras que, durante muito tempo, permaneceram invisíveis para quem nunca precisou enfrenta-las. Além disso, é muito simbólico que a experiência tenha acontecido justamente numa igreja, que independentemente de religião, é sempre um espaço de comunidade, de encontro, de pertencimento e oração.  Se alguém deixa de frequentar este ambiente porque teme o julgamento diante do comportamento de um filho, de um familiar, há algo que precisamos rever e repensar.

Talvez a primeira missa inclusiva do Rio Grande do Sul nos deixe, então, uma pergunta que ultrapassa os limites da própria celebração religiosa: quantas pessoas ainda estão do lado de fora de espaços cujas portas, aparentemente, estão abertas para todos?

Pensemos: incluir é permitir entrar. Acolher é permitir ficar. E pertencer é poder estar ali sem precisar deixar de ser quem se é.

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