Nesta semana, em que talvez
esperassem que eu trouxesse uma análise sobre as últimas decisões do STF, foi
outra a notícia que me chamou profundamente a
atenção. Ela trazia o tema da inclusão, que me interessa,
particularmente, como professora e como pedagoga, mas que deve interessar a
todos, porque nos convida a pensar sobre a inclusão para além dos espaços em
que habitualmente discutimos.
É que quando nos falamos em inclusão
quase imediatamente pensamos na escola, na universidade, no setor educacional.
Pensamos na acessibilidade, nas adaptações pedagógicas, em acompanhamento,
acolhimento para o aprender em formatos diferentes.
Todavia, a vida não acontece apenas
na escola, dentro dela, ou na universidade. A vida, ela acontece na praça, no
cinema, no supermercado, no restaurante, no trabalho, no teatro, nos espaços de
lazer e, também, nas igrejas.
E foi justamente a iniciativa
da Diocese de Montenegro que me chamou atenção: a celebração
religiosa para acolher pessoas neurodivergentes, pessoas com deficiências e
suas famílias.
A chamada missa inclusiva teve
adaptações, simples, mas que fizeram muita diferença. O volume do som foi
reduzido, a iluminação ficou mais suave, uma intérprete de Libras estava lá, e
havia a liberdade para que as pessoas pudessem levantar e circular durante a
celebração.
Tudo isso pode parecer pouco, mas
para as famílias, significou a diferença entre poder estar e precisar ir
embora. Entre participar da celebração, ou precisar ficar longe dela. Entre
sentir-se pertencente e perceber, uma vez mais, que aquele espaço – o da
Igreja, na missa – não foi pensado para um seu familiar .
É claro que não faltou que dissesse
que a verdadeira inclusão não dependeria da criação de um espaço próprio e
específico em que as pessoas neurodivergentes fossem acolhidas, porque elas
deveriam ser acolhidas nas celebrações com todas as demais pessoas.
Em princípio, sim. É interessante
pensar assim.
Um sociedade verdadeiramente
inclusiva não deveria precisar separar as pessoas para poder acolher.
Mas há uma distância bem importante
entre o mundo que desejamos e aquele que ainda temos. E há, sim, determinados
ambientes que apresentam barreiras talvez imperceptíveis para alguns, mas que
podem ser extremamente difíceis para outros.
E a celebração religiosa, católica, a
missa, tradicional, é um desses espaços.
Relembremos: nas missas, há música. Microfones. Cânticos.
Vozes que se alternam. Momentos em que muitas pessoas falam ou cantam ao mesmo
tempo. Depois, silêncio. Sinos. Movimentação. Luzes. Pessoas próximas umas das
outras. Além disso, há as expectativas sociais e rituais: permanecer sentado,
levantar, sentar novamente, ajoelhar-se, ficar em silêncio, não circular pelo
ambiente.
A maioria das pessoas faz isso tudo
de maneira ordinária e natural, vivem a experiência da missa com tranquilidade.
Porém, para uma pessoa com
determinadas sensibilidades sensoriais, ou quaisquer outras necessidades
específicas, e essa ritualidade transforma a experiência religiosa
da missa em algo extremamente desconfortável, ou inviável.
Não fosse isso suficiente, eu diria
que há também a barreira do olhar. A criança ou o jovem, ou até mesmo um
adulto, levanta. Quer caminhar, vocaliza durante um momento de silêncio, tem
comportamentos ou gestos repetitivos, emite uma reação inesperada a determinado
som... E o olhar, aquele olhar, ele vem.
Nesse particular, , a reportagem
sobre a celebração em Montenegro, levada a efeito pelo Padre Oséias Canisio
Dreyer, trouxe o relato de uma mãe, que conta ter se afastado da
Igreja, e assim permanecido, porque os sons e as estereotipias do filho
incomodavam outras pessoas.
Vejam só, a família não estava
formalmente impedida de ingressar na Igreja e participar da missa. A porta
estava aberta para quem quisesse, mas ainda assim, a família não conseguia
estar ali.
E isso, nos ensina algo muito
importante sobre inclusão: não basta permitir a entrada, não basta deixar a
porta aberta, não basta fazer discurso de acolhimento. É preciso criar
condições de permanência, participação e pertencimento.
E aqui eu trago a minha experiência
de educadora, de professora, refletindo que uma escola ou uma universidade deve
receber um aluno com deficiência, ou neurodivergente, mas ainda assim não ser
inclusiva. A matrícula garante o acesso. A porta está aberta. Mas quem garante
que esse estudante conseguirá aprender, participar, conviver e permanecer.
E fiquei pensando que a experiência
da missa de Montenegro deveria ser transportada para todos os demais espaços
sociais. Quem consegue estar neles? Quem deixou de vir? E, principalmente, o
que existe nestes ambientes que poderíamos modificar para que mais pessoas
consigam participar.
Essa pergunta, e as providências em
resposta a elas, mudam completamente a nossa compreensão sobre inclusão, porque
passamos a pensar sobre o que os ambientes podem/devem fazer para colher
diferentes pessoas.
A experiência da diocese de
Montenegro torna evidente e visível as barreiras que, durante muito tempo,
permaneceram invisíveis para quem nunca precisou enfrenta-las. Além disso, é
muito simbólico que a experiência tenha acontecido justamente numa igreja, que
independentemente de religião, é sempre um espaço de comunidade, de encontro,
de pertencimento e oração. Se alguém deixa de frequentar este
ambiente porque teme o julgamento diante do comportamento de um filho, de um
familiar, há algo que precisamos rever e repensar.
Talvez a primeira missa inclusiva do
Rio Grande do Sul nos deixe, então, uma pergunta que ultrapassa os limites da
própria celebração religiosa: quantas pessoas ainda estão do lado de fora de
espaços cujas portas, aparentemente, estão abertas para todos?
Pensemos: incluir é permitir entrar. Acolher é permitir ficar. E pertencer é poder estar ali sem precisar deixar de ser quem se é.

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