Pesquisar este blog

quarta-feira, setembro 16

Quando a literatura interroga a Justiça

Ontem estive atenta, o quanto pude, ao julgamento realizado pelo STF no âmbito da Pet 16.662, procedimento em tramitação na Corte que envolve, entre outras questões, diálogos atribuídos ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e referências ao ministro Alexandre de Moraes.

A sessão renderia dezenas de escritos. Houve muitas manifestações dos ministros capazes de sustentar artigos sobre os mais variados temas.

Mas eu — talvez pela expectativa em relação à fala da ministra Cármen Lúcia, que permaneceu em silêncio por mais de três horas — prestei especial atenção ao momento em que ela finalmente se manifestou.

Em dado momento, entre pedidos de desculpas, a ministra recorreu a Clarice Lispector e disse: “se não me perdi, experimentei a perdição”.

A frase remete ao conto Mineirinho, de Clarice Lispector, no qual a escritora reflete sobre a morte de um homem que, procurado pela polícia, acaba morto com treze tiros. Ao escrever sobre o episódio, Clarice reconhece que aquilo que, em Mineirinho, se transformou em violência pertence à mesma matéria humana que existe nela. E então escreve: “também eu, que não me perdi, experimentei a perdição”.

O sentido dessa frase é muito forte. Em última análise, o que a autora parece dizer é: eu, que não me tornei aquilo que condeno, sou capaz de reconhecer em mim a experiência humana que poderia conduzir alguém até lá.

Há nessa afirmação um reconhecimento da fragilidade humana. Não se trata de justificar erros ou violências, mas de recusar uma divisão demasiadamente simples do mundo entre, de um lado, nós, e de outro, eles, ou seja, nós, os corretos e, eles, os incorretos..

É também uma forma de interrogar a Justiça, a punição e a distância que estabelecemos entre quem julga e quem é julgado. Como julgar o outro sem deixar de reconhecer que a possibilidade do erro, do desnorteamento e da queda também pertence à condição humana? Portanto, a todos nós.

Na ânsia de compreender as palavras da ministra — e sem cair na tentação de atribuir a ela mais do que efetivamente disse — pensei naquela frase dentro do contexto em que foi pronunciada.

Minha leitura foi a de que, ao recorrer a Clarice, Cármen Lúcia não dizia ter perdido seus valores ou deixado de acreditar naquilo que considera justo e correto como juíza. Parecia, antes, reconhecer-se dentro de uma situação em que a desorientação, o desconcerto, a perda de referências, a perplexidade, o descompasso e a instabilidade se faziam sentir.

E é particularmente interessante perceber que, décadas atrás, Clarice Lispector usava a literatura para interrogar a Justiça e que, agora, uma ministra da mais alta Corte do país recorre à mesma literatura em um momento no qual a própria Justiça — aqui representada pelo STF — é chamada a olhar para si.

Foi assim que compreendi a referência feita por Cármen Lúcia: como um chamado à responsabilidade institucional e à capacidade que deve ter quem julga de também olhar para si próprio.

Entre não se perder  e  experimentar a perdição existe um espaço ao mesmo tempo importante e difícil: o da consciência.

Foi nesse lugar do conto Mineirinho que Cármen Lúcia encontrou palavras para pedir desculpas ao Brasil.

E penso que aí, esteja a parte mais significativa de sua manifestação. Ao fazê-lo, ela não se colocou simplesmente como observadora externa, equidistante daquilo que acontece no STF e com o STF. Incluiu-se na instituição.

A minha leitura de sua fala é, portanto, a de um reconhecimento de pertencimento e de responsabilidade institucional: estar dentro de uma instituição significa também ser alcançado por suas crises, seus conflitos e seus momentos de perda de referência.

A frase de Clarice, naquele contexto, adquiriu então outra dimensão.

Não se perder não significa não perceber a perdição ao redor.

E quando quem julga consegue reconhecer isso -  olhando também para si e para a instituição à qual pertence —  a literatura deixa de ser apenas uma citação e passa, verdadeiramente, a interrogar a Justiça.

Nenhum comentário: