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sábado, agosto 8

No comércio, me chamam de flor, querida e mimosa...(*)

Há um comportamento entre os comerciários que tende a se potencializar nas vésperas de festas tradicionais, Natal, Dia dos Pais, Dia das Mães e tantas outras. Para atender a demanda que aumenta, o comércio contrata vários funcionários temporários. Alguns querem agradar o comprador a todo custo. Quem sabe assim conseguem manter o emprego por mais algum tempo, e não somente durante o período de lojas cheias? Por isso, alguns pensam valer usar algumas expressões de efeito duvidoso.

Você entra na loja, vem a atendente e, de forma amistosa, pergunta se pode auxiliar. Dependendo do momento, a presença dela é até inconveniente, mas vá lá. Ela está ali para ajudar. Você, então, solicita o produto, ou pergunta sobre se existe determinada mercadoria. E a resposta vem assim: ‘Minha flor’, dessa cor não tem mais; ou, ‘mimosa’, vou te trazer todas as cores e os tamanhos que eu tenho.

Quem é um pouco arredio a esses surtos de adjetivação fica se sentindo desconfortável. Ok, a comerciária está sendo gentil. Mas será que precisa comportar-se assim?

Se o funcionário é homem, o constrangimento é ainda maior. Dá vontade dizer: olha, suspende os

adjetivos, apenas me responde ao que for perguntado. Já me aconteceu, certa vez, de fazer o pedido e o rapaz responder: " 'Minha querida, vou buscar o que tenho para te mostrar. Posso trazer de todas as cores?' Eu fico pensando: alguém me incluiu e eu nem sabia. Sou dele, é? E ainda, querida? Como assiiiimm?

Aqui em Pelotas há um estabelecimento comercial cujo proprietário tem esse hábito - chamar suas clientes de ‘querida’, ‘mimosa’, ‘lindinha’ ou ‘minha flor’. É tão aborrecido... Outro dia – para fazer um teste – convidei meu marido para estar comigo nesse estabelecimento. Eu queria confirmar se, mesmo na presença de uma companhia masculina, as palavras seriam ditas do mesmo modo. Escolhi um produto para buscar e ingressei no bazar. Antes mesmo que eu pudesse perguntar, ele lascou: ‘Minha querida’ no que eu posso te ajudar? Fiz o pedido e ele contestou: ‘Ah, mimosa, não tem mais. Mas vou receber..."

Saímos entre risos, teste feito, confirmação de que o tratamento dispensado às freguesas é um hábito por ali, estejam elas sozinhas ou acompanhadas.

Não sou especialista em recursos humanos, e nem ‘expert’ em posturas e atitudes para atuação no comércio, mas percebo que ser tratada por ‘mimosa’, ‘querida’ ou qualquer outra qualidade dessas não há de ser uma recomendação nos manuais de treinamento e capacitação para atendimento ao público.

O bom acolhimento prolonga a vida da empresa. Isso todos sabemos. Ter um grupo de funcionários gentis e prestativos é o ideal. Ser um comerciante zeloso, delicado e atencioso também é. Mas alguns exageros verbais não devem ser usados. Eles, em vez de agregar clientes, podem ter um efeito perverso e contrário, afastando os fregueses.

E você, o que acha?

(*) Crônica escrita em novembro de 2011

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