Viajar é um dos meus maiores prazeres. Descobri desde muito pequena as delícias de sair para conhecer lugares — fossem eles mais ou menos distantes. Depois, somei a essa descoberta uma nova certeza: planejar um trajeto também é uma forma de já estar a caminho.
Basta que surja a possibilidade
de um novo destino para que parte da jornada comece a acontecer.
Antes das malas, dos aeroportos,
das estradas e das estações de trem, chegam até mim os mapas (*), as pesquisas,
as distâncias e todas as perguntas que fazem parte desse encanto de partir.
Qual será o percurso? Por quais
cidades passaremos? Onde vale a pena pernoitar e de onde podemos fazer um bate volta? Carro, moto, trem ou motorhome? Quantos quilômetros daqui até ali? O que
existe naquele caminho que talvez mereça uma parada não prevista inicialmente?
E vou pesquisando.
Abro mais uma vez o mapa, refaço
trajetos, somo ou diminuo cidades, descubro outras das quais nunca tinha ouvido
falar, comparo possibilidades, mudo de ideia e volto à primeira opção. Às
vezes, um pequeno achado altera todo o itinerário. E eu adoro isso.
O planejamento envolve também
pensar na alimentação — no meu caso, talvez ainda mais do que para a maioria
das pessoas. Tenho um menu pessoal bastante restrito e, por isso, preciso de
alguma organização prévia sobre onde e como vou me alimentar. Não sou de
experimentar novos sabores, e minhas escolhas gastronômicas são bastante
simples. Ou seja: mesmo em deslocamento, minha rotina alimentar precisa
permanecer a mais ou menos a mesma. Assim, uma hospedagem com cozinha pode ser
bem mais importante do que um hotel sofisticado, e um supermercado próximo
torna-se uma informação essencial. Viajar, para mim, também significa encontrar
maneiras de levar comigo alguma segurança dos meus hábitos.
E agora ando novamente às voltas
com mapas, trens, estradas, cidades e hospedagens.
Há uma boa razão para isso: uma
comemoração que ainda não se completou, e não quero perder nenhuma
oportunidade…
Para onde? Ainda não posso
contar.
Na verdade, preciso decidir
alguns detalhes antes de compartilhar. Há caminhos sendo acrescentados, outros
retirados, cidades disputando espaço no roteiro e aquela matemática inevitável
entre o tempo de que dispomos e tudo o que gostaríamos de conhecer. E, acima de
tudo, o desafio de tornar a ideia economicamente viável.
É justamente nesse vai e vem da
preparação que está uma das etapas de que mais gosto: o destino vai tomando
forma aos poucos. E, mesmo desenhado com cuidado, pode alterar seu rumo no meio
do caminho, porque a viagem é um organismo vivo. A experiência demonstra que os
planos quase nunca se cumprem exatamente como foram organizados — e isso também
é maravilhoso.
Há quem comece a viajar quando
fecha a porta de casa. Há quem considere que o ponto de partida é o aeroporto,
a rodoviária ou o momento em que o carro ganha a estrada.
As minhas começam muito antes.
Iniciam quando abro um mapa e pergunto: e se a gente fosse por aqui?
Por isso, embora ainda faltem
decisões, reservas, malas e muitos quilômetros até o embarque, de uma coisa eu
já tenho certeza: a próxima viagem já começou!
(*) Sobre mapas... ainda haverei de
escrever sobre isso. Sempre viajei por sobre eles, e três pessoas foram
fundamentais neste hábito: meu pai, minha irmã e o ‘Seu Lopes’ (a quem ainda
dedicarei uma crônica).

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