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sábado, setembro 26

Quando a mãe fala pela minha boca...

Há heranças que a genética explica. O jeito do rosto, um gesto, talvez certas habilidades. Há outras que aprendemos pela convivência: gostos, hábitos, maneiras de fazer as coisas.

Mas há uma herança que me intriga cada vez mais: aquela que parece ter ficado guardada em algum lugar da memória e que, com o passar dos anos, começa a aparecer sem ser chamada.

Tenho me percebido cada vez mais parecida com a mãe.

Às vezes é um gesto. Outras vezes, uma atitude, um gosto, uma habilidade que era tão particularmente dela. E, de repente, me escuto dizendo uma palavra e penso: isso era a mãe quem dizia.

É curioso. Palavras que ouvi durante tantos anos ficaram quietinhas em algum lugar de mim. Algumas eu nem sabia que havia guardado. Até que um dia saem pela minha boca com a mesma naturalidade com que saíam pela dela.

Talvez seja assim que algumas pessoas permaneçam em nós.

Há algum tempo escrevi um texto chamado “O palavreado da mãe”. Nele reuni expressões que pertenciam ao universo particular dela — algumas engraçadas, outras estranhas, muitas quase desaparecidas do vocabulário cotidiano.

Quando escrevi, pensei que estava registrando as palavras da mãe para que eu não as esquecesse.

Hoje percebo outra coisa: talvez eu não precisasse ter tanto medo de esquecê-las.

Elas já estavam guardadas em mim.

E, vez ou outra, a mãe fala pela minha boca.

_____________________

Leia, a seguir, O Palavreado da Mãe:


Quando viajo de moto tenho fluídos os pensamentos. 

Dia desses, percorrendo muitos quilômetros na garupa, tive meus pensamentos voltados pra minha mãe, para o palavreado da mãe. 

Fui lembrando cada uma das palavras de um farto - e peculiar - vocabulário que ela sempre usava.

É estranho reportar-me à mãe como se ela não estivesse mais aqui, mesmo estando, mas relembrar das suas expressões acaba sendo uma boa maneira de não apagar da minha memória aquilo que não é mais lembrança pra mãe. 

Eu duvido que alguém tenha pronunciado, mais do que ela, a expressão “carestia da vida”.

Cresci com um medo terrível desta ameaça que assombrou a história da minha vida e a de meus irmãos.

 Até que, crescida, percebi que a tal carestia se aproximava e se afastava de nós ao ciclos, sublimada pelos esforços de trabalho e economia dos pais. 

Por fim, quando expressada pela mãe, acabava sendo motivo para boas risadas. 

Se por um lado havia a carestia, por outro a mãe sentenciava que dinheiro não traz felicidade, e justificava com histórias tristes da sua própria família, ou de conhecidos seus que, abastados, viviam sob o manto da infelicidade. 

“Senta a cabeça” e larga desse “algareio” ouvi muitas vezes, na tentativa da mãe de me convencer que a “galaça”- que eu acredito ser “calaça” - não me levaria a nenhum bom lugar. 

Outras expressões que me recordei -muito próprias da mãe - me fizeram rir nos solavancos da moto, tais como “apoltronada”, “ cola alçada”, “recemzinha”, “chispando”, “gaiato”, “gavionando por aí”, “batendo cola”, “não tem curé curé”, “melange”, bater  lingua”, “tomar tento”, “dinheiral”, “forrobodó”, “rueira”, “lata na cola”, “gentalha”, “cadeiruda”, “desmilinguida”, “fundilhuda”, “ruana”, “avoada”, “tipa”, “pretor”, “viração”, “mandrulho”, “estenderete”, mixórdia” e ”grossor”. 

Um dicionário que poderia ser escrito com as expressões da mãe e que eu denominaria, Dicionário da Zairocon, con Zeta!

sábado, setembro 19

Quando começa uma viagem?

 

Viajar é um dos meus maiores prazeres. Descobri desde muito pequena as delícias de sair para conhecer lugares — fossem eles mais ou menos distantes. Depois, somei a essa descoberta uma nova certeza: planejar um trajeto também é uma forma de já estar a caminho.

Basta que surja a possibilidade de um novo destino para que parte da jornada comece a acontecer.

Antes das malas, dos aeroportos, das estradas e das estações de trem, chegam até mim os mapas (*), as pesquisas, as distâncias e todas as perguntas que fazem parte desse encanto de partir.

Qual será o percurso? Por quais cidades passaremos? Onde vale a pena pernoitar e de onde podemos fazer um bate volta? Carro, moto, trem ou motorhome? Quantos quilômetros daqui até ali? O que existe naquele caminho que talvez mereça uma parada não prevista inicialmente?

E vou pesquisando.

Abro mais uma vez o mapa, refaço trajetos, somo ou diminuo cidades, descubro outras das quais nunca tinha ouvido falar, comparo possibilidades, mudo de ideia e volto à primeira opção. Às vezes, um pequeno achado altera todo o itinerário. E eu adoro isso.

O planejamento envolve também pensar na alimentação — no meu caso, talvez ainda mais do que para a maioria das pessoas. Tenho um menu pessoal bastante restrito e, por isso, preciso de alguma organização prévia sobre onde e como vou me alimentar. Não sou de experimentar novos sabores, e minhas escolhas gastronômicas são bastante simples. Ou seja: mesmo em deslocamento, minha rotina alimentar precisa permanecer a mais ou menos a mesma. Assim, uma hospedagem com cozinha pode ser bem mais importante do que um hotel sofisticado, e um supermercado próximo torna-se uma informação essencial. Viajar, para mim, também significa encontrar maneiras de levar comigo alguma segurança dos meus hábitos.

E agora ando novamente às voltas com mapas, trens, estradas, cidades e hospedagens.

Há uma boa razão para isso: uma comemoração que ainda não se completou, e não quero perder nenhuma oportunidade…

Para onde? Ainda não posso contar.

Na verdade, preciso decidir alguns detalhes antes de compartilhar. Há caminhos sendo acrescentados, outros retirados, cidades disputando espaço no roteiro e aquela matemática inevitável entre o tempo de que dispomos e tudo o que gostaríamos de conhecer. E, acima de tudo, o desafio de tornar a ideia economicamente viável.

É justamente nesse vai e vem da preparação que está uma das etapas de que mais gosto: o destino vai tomando forma aos poucos. E, mesmo desenhado com cuidado, pode alterar seu rumo no meio do caminho, porque a viagem é um organismo vivo. A experiência demonstra que os planos quase nunca se cumprem exatamente como foram organizados — e isso também é maravilhoso.

Há quem comece a viajar quando fecha a porta de casa. Há quem considere que o ponto de partida é o aeroporto, a rodoviária ou o momento em que o carro ganha a estrada.

As minhas começam muito antes. Iniciam quando abro um mapa e pergunto: e se a gente fosse por aqui?

Por isso, embora ainda faltem decisões, reservas, malas e muitos quilômetros até o embarque, de uma coisa eu já tenho certeza: a próxima viagem já começou!

 

(*) Sobre mapas... ainda haverei de escrever sobre isso. Sempre viajei por sobre eles, e três pessoas foram fundamentais neste hábito: meu pai, minha irmã e o ‘Seu Lopes’ (a quem ainda dedicarei uma crônica).