Há heranças que a genética explica. O jeito do rosto, um gesto, talvez certas habilidades. Há outras que aprendemos pela convivência: gostos, hábitos, maneiras de fazer as coisas.
Mas há uma herança que me intriga cada vez mais: aquela que parece ter ficado guardada em algum lugar da memória e que, com o passar dos anos, começa a aparecer sem ser chamada.
Tenho me percebido cada vez mais parecida com a mãe.
Às vezes é um gesto. Outras vezes, uma atitude, um gosto, uma habilidade que era tão particularmente dela. E, de repente, me escuto dizendo uma palavra e penso: isso era a mãe quem dizia.
É curioso. Palavras que ouvi durante tantos anos ficaram quietinhas em algum lugar de mim. Algumas eu nem sabia que havia guardado. Até que um dia saem pela minha boca com a mesma naturalidade com que saíam pela dela.
Talvez seja assim que algumas pessoas permaneçam em nós.
Há algum tempo escrevi um texto chamado “O palavreado da mãe”. Nele reuni expressões que pertenciam ao universo particular dela — algumas engraçadas, outras estranhas, muitas quase desaparecidas do vocabulário cotidiano.
Quando escrevi, pensei que estava registrando as palavras da mãe para que eu não as esquecesse.
Hoje percebo outra coisa: talvez eu não precisasse ter tanto medo de esquecê-las.
Elas já estavam guardadas em mim.
E, vez ou outra, a mãe fala pela minha boca.
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Leia, a seguir, O Palavreado da Mãe:
Quando viajo de moto tenho fluídos os pensamentos.
Dia desses, percorrendo muitos quilômetros na garupa, tive meus pensamentos voltados pra minha mãe, para o palavreado da mãe.
Fui lembrando cada uma das palavras de um farto - e peculiar - vocabulário que ela sempre usava.
É estranho reportar-me à mãe como se ela não estivesse mais aqui, mesmo estando, mas relembrar das suas expressões acaba sendo uma boa maneira de não apagar da minha memória aquilo que não é mais lembrança pra mãe.
Eu duvido que alguém tenha pronunciado, mais do que ela, a expressão “carestia da vida”.
Cresci com um medo terrível desta ameaça que assombrou a história da minha vida e a de meus irmãos.
Até que, crescida, percebi que a tal carestia se aproximava e se afastava de nós ao ciclos, sublimada pelos esforços de trabalho e economia dos pais.
Por fim, quando expressada pela mãe, acabava sendo motivo para boas risadas.
Se por um lado havia a carestia, por outro a mãe sentenciava que dinheiro não traz felicidade, e justificava com histórias tristes da sua própria família, ou de conhecidos seus que, abastados, viviam sob o manto da infelicidade.
“Senta a cabeça” e larga desse “algareio” ouvi muitas vezes, na tentativa da mãe de me convencer que a “galaça”- que eu acredito ser “calaça” - não me levaria a nenhum bom lugar.
Outras expressões que me recordei -muito próprias da mãe - me fizeram rir nos solavancos da moto, tais como “apoltronada”, “ cola alçada”, “recemzinha”, “chispando”, “gaiato”, “gavionando por aí”, “batendo cola”, “não tem curé curé”, “melange”, bater lingua”, “tomar tento”, “dinheiral”, “forrobodó”, “rueira”, “lata na cola”, “gentalha”, “cadeiruda”, “desmilinguida”, “fundilhuda”, “ruana”, “avoada”, “tipa”, “pretor”, “viração”, “mandrulho”, “estenderete”, mixórdia” e ”grossor”.
Um dicionário que poderia ser escrito com as expressões da mãe e que eu denominaria, Dicionário da Zairocon, con Zeta!
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