Pesquisar este blog

sábado, outubro 24

18 anos de escrita, inquietações e aprendizagens

Em 25 de outubro de 2008, nascia este Blog. 

Dezoito anos depois, ele chega à maioridade!

Para quem transita pelo Direito, a expressão maioridade tem um significado especial. Aos 18 anos, alcançamos a plena capacidade civil e passamos a responder penalmente por nossas condutas. Mas, quando se trata de um blog, alcançar a maioridade talvez tenha menos a ver com estar pronto e mais com reconhecer uma trajetória construída entre experiências, mudanças, descobertas e aprendizagens.

E esta é uma história que começou com uma inquietação e uma boa dose de curiosidade.

Era um sábado, 25 de outubro de 2008 (*).

 Durante uma atividade de formação na UCPel, surgiu a oportunidade de experimentar uma ferramenta que, naquele momento, representava uma possibilidade inovadora de comunicação e compartilhamento de conhecimentos. Criar um blog significava descobrir um espaço de expressão que ultrapassava os limites físicos da sala de aula, permitia disponibilizar materiais, compartilhar reflexões e estabelecer novas formas de interação com os estudantes.

É importante lembrar o que isso representava em 2008. A internet já fazia parte de nossas vidas, mas as redes sociais ainda não ocupavam a centralidade que adquiririam nos anos seguintes, os smartphones estavam apenas começando a transformar nossos hábitos e as plataformas digitais de ensino não tinham a presença que hoje conhecemos. Para uma professora de Direito, criar e alimentar um blog era experimentar uma maneira diferente de ensinar, comunicar e construir relações com o conhecimento. Era, de certa forma, abrir uma janela da sala de aula para o mundo.

Não sei se, naquele sábado, imaginei que continuaria escrevendo aqui dezoito anos depois.

 Provavelmente, não. Mas aquela experiência correspondia a uma convicção que já orientava minha prática docente: ensinar não pode se limitar à transmissão de conteúdos, assim como aprender não pode significar apenas recebê-los e reproduzi-los.

Desde então, o mundo mudou profundamente. Vivemos transformações tecnológicas, políticas, sociais e culturais que alteraram nossas formas de trabalhar, comunicar, conviver e compreender a realidade. A informação, antes concentrada em determinados espaços e fontes, tornou-se acessível em uma escala e velocidade extraordinárias. Os blogs, que representaram uma importante expressão da democratização da produção de conteúdos na internet, passaram a conviver com redes sociais, plataformas de vídeos, podcasts, ambientes virtuais de aprendizagem e tantas outras possibilidades de comunicação.

Mais recentemente, a inteligência artificial generativa acrescentou uma nova dimensão a essas transformações, modificando não apenas a maneira como acessamos informações, mas também como produzimos textos, elaboramos argumentos, realizamos pesquisas e enfrentamos problemas.

Em dezoito anos, mudaram as ferramentas, os estudantes, os hábitos de leitura, as formas de interação e as expectativas em relação à educação. Mudou, também, o contexto em que ensinamos e aprendemos Direito.

Em 2008, disponibilizar conteúdos e ampliar o diálogo para além da sala de aula já representava uma inovação pedagógica. Hoje, quando praticamente qualquer informação pode ser encontrada em poucos segundos e ferramentas de inteligência artificial são capazes de produzir respostas elaboradas para questões complexas, os desafios são outros. Não basta oferecer acesso ao conhecimento: é preciso desenvolver a capacidade de compreendê-lo, examiná-lo criticamente, estabelecer relações, identificar inconsistências e construir interpretações fundamentadas.

No ensino jurídico, essa transformação é especialmente significativa. Conhecer a legislação, compreender conceitos, estudar a doutrina e analisar decisões judiciais continuam sendo atividades indispensáveis. Entretanto, formar profissionais do Direito exige muito mais do que dominar informações. Exige desenvolver autonomia intelectual, sensibilidade diante dos problemas humanos e sociais, capacidade argumentativa e responsabilidade pelas posições assumidas.

Afinal, se as tecnologias podem localizar normas, sistematizar entendimentos e até elaborar argumentos jurídicos, torna-se ainda mais importante que os estudantes aprendam a formular boas perguntas, avaliar criticamente as respostas e compreender as consequências de suas escolhas.

Isso não significa que a tecnologia, por si só, tenha transformado a educação. Podemos dispor de recursos extraordinariamente sofisticados e continuar reproduzindo práticas pedagógicas centradas na transmissão de informações e na memorização de respostas. A inovação que realmente importa não está apenas nas ferramentas utilizadas, mas nas possibilidades de aprendizagem que conseguimos construir a partir delas.

Ao longo desses anos, também fui modificando minhas práticas, experimentando metodologias, propondo atividades, revendo estratégias e aprendendo com os resultados, inclusive com aqueles que não corresponderam às expectativas. A experiência docente me ensinou que não existem fórmulas definitivas e que a disposição para rever caminhos é tão importante quanto a segurança dos conhecimentos que compartilhamos.

Hoje, a inteligência artificial nos coloca diante de novas possibilidades e responsabilidades. Seu potencial para apoiar a pesquisa, a escrita, a análise de problemas e a aprendizagem é inegável, mas seu uso também exige reflexão ética e pedagógica. O desafio é incorporá-la sem abdicar da autonomia intelectual, do pensamento crítico e da capacidade de produzir conhecimento próprio.

É curioso perceber que, embora os recursos tecnológicos de 2008 e de 2026 sejam tão diferentes, uma preocupação permanece: como fazer com que a tecnologia amplie as oportunidades de aprender, em vez de simplesmente facilitar a reprodução de informações?

E é justamente nesse cenário que volto meu olhar para este Blog e para o sentido de sua permanência.

Ao longo de dezoito anos, ele ultrapassou a marca de três milhões de acessos, um número que certamente não fazia parte das expectativas daquela experiência iniciada em uma manhã de sábado. Mais importante do que a quantidade de visitas, entretanto, é pensar nas pessoas que passaram por aqui e nas diferentes razões que as trouxeram até estas páginas: estudantes em busca de materiais, colegas interessados em experiências pedagógicas, profissionais do Direito, leitores atraídos por alguma reflexão ou simplesmente pessoas dispostas a compartilhar ideias.

Nesse percurso, o Blog também se transformou. Sem abandonar sua origem vinculada ao ensino jurídico, tornou-se um espaço de escrita sobre Direito, justiça, educação, cidadania, cultura e acontecimentos da vida cotidiana. Nele, convivem reflexões acadêmicas, experiências docentes, comentários sobre questões sociais e textos que nascem da observação do mundo e das inquietações que ele provoca.

De certa maneira, estas páginas também registram uma trajetória profissional e pessoal. São testemunhas de mudanças nas minhas formas de pensar, ensinar e escrever, de interesses que se ampliaram e de convicções que foram reafirmadas ou revistas. Constituem uma memória que não é estática, porque cada texto pertence ao seu tempo e, ao mesmo tempo, pode ser revisitado à luz de novas experiências.

Mas, diante de tantas plataformas e possibilidades de comunicação, por que continuar mantendo um blog?

Talvez porque algumas de suas características, que pareciam tão inovadoras em 2008, tenham adquirido um valor diferente e igualmente importante em 2026.

Em um ambiente digital marcado pela velocidade, pela fragmentação das informações e pela disputa permanente por atenção, o Blog ainda oferece um espaço para desenvolver ideias sem a obrigação de reduzi-las a poucas linhas, a imagens de impacto ou a mensagens destinadas ao consumo imediato. Permite construir argumentos, contextualizar acontecimentos, compartilhar experiências e convidar à reflexão com o tempo que determinados assuntos exigem.

Também preserva algo que considero especialmente valioso: a possibilidade de organizar e manter acessível uma produção escrita que não desaparece necessariamente na sucessão acelerada das publicações das redes sociais. Um texto pode ser encontrado, recuperado, relido e reinterpretado anos depois de sua publicação. Pode continuar provocando perguntas muito tempo após o acontecimento que motivou sua escrita.

E há, ainda, uma dimensão de liberdade. Este Blog permanece como um espaço de expressão autoral, no qual posso escolher os temas, desenvolver reflexões, experimentar formas de escrita e compartilhar ideias sem que tudo precise obedecer à lógica da instantaneidade. Não se trata de rejeitar as novas tecnologias ou as redes sociais, que também oferecem possibilidades importantes de comunicação, mas de reconhecer que diferentes espaços cumprem funções distintas e podem se complementar.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais continuo voltando a esta página. Escrever me obriga a organizar o pensamento, examinar minhas próprias posições e transformar inquietações em reflexões que possam ser compartilhadas. E compartilhar não significa oferecer verdades definitivas, mas admitir que o conhecimento se constrói também pelo diálogo, pela divergência e pela disposição de reconsiderar aquilo que julgávamos saber.

Chegar aos dezoito anos, portanto, não significa que este Blog tenha cumprido sua missão e possa considerar-se pronto. Ao contrário, sua maioridade coincide com um momento em que o mundo, a educação e o Direito nos apresentam questões que talvez fossem inimagináveis quando publiquei os primeiros textos.

Quero continuar escrevendo sobre os temas que me mobilizam, acompanhando as transformações da sociedade, compartilhando experiências de ensino e explorando as relações entre o Direito e outras formas de compreender a realidade. Quero, sobretudo, preservar a liberdade de experimentar, questionar e aprender, porque acredito que a docência não se sustenta apenas naquilo que sabemos, mas também na disposição de reconhecer tudo o que ainda precisamos compreender.

Se, em 2008, a inovação estava em descobrir como um blog poderia ampliar as possibilidades de ensinar e aprender, em 2026 ela está em compreender como utilizar criticamente um universo de tecnologias que transforma continuamente nossas relações com o conhecimento.

As ferramentas mudaram. O mundo mudou. O ensino jurídico também precisa continuar mudando. Mas uma convicção atravessa esses dezoito anos: ensinar Direito é muito mais do que ensinar leis. É contribuir para a formação de pessoas capazes de pensar, interpretar, argumentar e construir suas próprias respostas, com autonomia, responsabilidade e compromisso com a realidade social.

É com essa convicção que celebro a maioridade deste Blog, agradecendo a quem passou por aqui, a quem permaneceu, a quem chegou recentemente e a quem, de alguma maneira, participou dessa trajetória de escrita e aprendizagem.

A maioridade traz responsabilidades, mas não precisa trazer certezas definitivas. Prefiro pensar que ela amplia nossa capacidade de fazer escolhas sem diminuir a curiosidade que nos impulsiona a descobrir novos caminhos.

Feliz aniversário, Blog!

Que os dezoito anos não representem a pretensão de já saber tudo, mas a liberdade e a disposição de continuar perguntando.

E que, daqui a muitos anos, eu ainda tenha boas razões para voltar a esta página e escrever:

Continuo aprendendo!


(*) Eu escrevo hoje o texto comemorativo dos 18 anos do Blog, num sábado - mesmo que o aniversário seja amanhã, 25 de outubro de 2026 - domingo -  para que este escrito seja uma Edição Especial dos Escritos de Sábado. Celebro essa trajetória e reflito sobre o que mudou desde 2008, o que permanece, e por que ainda faz sentido manter um blog em 2026.

Nenhum comentário: