Levantamento inédito aponta mudança no perfil do jovem infrator no estado.
Na capital, 71% dos adolescentes na Fundação Casa respondem por roubo.
Levantamento inédito realizado pela Fundação Casa (antiga Febem), em São Paulo, e obtido com exclusividade pelo G1, aponta mudança no perfil dos jovens infratores no estado. Segundo os dados da instituição, atualmente, o que mais leva os adolescentes infratores para a Fundação Casa são os crimes de roubo qualificado (com violência ou ameaça) e tráfico de drogas, ao contrário do que ocorria nos anos 90 e início da década, quando o furto era o crime mais recorrente entre os internos da Febem.
Também há diferenças entre adolescentes infratores nas várias regiões do estado de São Paulo. Na capital, em 2010, 71,4% dos detidos eram acusados por roubo qualificado e 13,3%, por tráfico. A situação começa a se inverter na Grande São Paulo, onde o número de adolescentes de 12 a 18 anos atrás das grades por roubo cai para 46,6% em 2010. O número de apreendidos por tráfico é maior: 38,2%.
No interior do estado, o tráfico lidera os crimes cometidos pelos adolescentes (47%). O mesmo se repete no litoral, onde 40% são acusados de porte ilegal de drogas.
Segundo a presidente da Fundação Casa, Berenice Giannella, "a mudança no perfil dos adolescentes recolhidos reflete a migração do crime". "Na capital, muitos adolescentes acabam apreendidos porque se envolvem com quadrilhas, que até mesmo roubam para sustentar vícios da droga", diz Berenice.
Outro fator para maior apreensão de adolescentes por tráfico no interior deve-se, segundo Berenice, ao fato de juízes nessa região determinarem a internação dos garotos logo na primeira vez em que eles são detidos. "Na capital, os juízes costumam cumprir o que diz o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) e só determinam a internação em casos graves, lá pela segunda ou terceira vez em que o adolescente é apreendido por tráfico", acrescenta a presidente da Fundação Casa.
Diretora da Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude (ABMP), a juíza Brigitte Remor de Souza May diz que “o estudo demonstra uma mudança na realidade da criminalidade juvenil nos grandes centros”.
“No país inteiro, a maioria dos adolescentes detidos é por furto, pois ocorre sem violência ou uso de arma, e também crimes contra o patrimônio, como roubo de carros e assaltos. Mas o tráfico é um fenômeno que vem crescendo muito no Brasil, não só em São Paulo, como no Rio de Janeiro, Florianópolis, Natal, Fortaleza e grandes capitais”, afirmou a juíza ao G1.
Porcentagem de adolescentes infratores detidos no estado de São Paulo
Região / Ato Infracional 2006 (%) 2010(%)
Capital - Roubo qualificado 67,7% 71,4%
Capital - Tráfico de drogas 9,8% 13,3%
Capital - Furto 5% 4,6%
Grande São Paulo - Roubo 54,9% 46,6%
Grande São Paulo - Tráfico 22,1% 38,2%
Grande São Paulo - Homicídio 5,6% ----- *
Interior - Roubo 38% 25,5%
Interior - Tráfico 24,9% 47,1%
Interior - Homicídio 6% ----- *
Litoral - Roubo 56,2% 39,4%
Litoral - Tráfico 25,5% 40%
Litoral - Homicídio doloso 2,8% ----- *
* (o crime não está entre os 5 maiores no ano)
“O tráfico de drogas tem ocupado cada vez mais espaço na vida dos adolescentes, principalmente em condições de rua”, acrescenta Brigitte.
Assassinatos e latrocínios em queda
O estudo da Fundação Casa também apontou diferenças no perfil dos jovens infratores no litoral sul paulista. Até 2010, a maioria dos garotos apreendidos na área era por roubo – eram 56% em 2006; caindo para 50% em 2009. No ano passado, o tráfico de drogas assumiu a liderança entre os índices criminais de adolescentes: 40% foi detido pelo crime.