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sábado, agosto 15

Quando todos ainda cabíamos na Rural...

Eu devia ter três ou quatro anos. Portanto, essa história aconteceu lá pelos anos de 1969 ou 1970.

Meu pai havia comprado uma Rural Willys zerinho. Vermelha e branca. Uma linda “caminhonete” que, para mim, acabou se tornando parte inseparável das lembranças daquela época.

Imagem ilustrativa 

 Foi nela que fizemos nossa primeira viagem ao   Uruguai: pai, mãe, eu e meus quatro irmãos. Uma   família inteira acomodada na Rural, tomando o rumo   de Jaguarão para, dali, atravessar a fronteira e   conhecer a terra dos hermanos.

 Ingressamos no Uruguai com nossas carteiras do       INPS - Instituto Nacional de Previdência Social -  e s   seguimos viagem.

A primeira parada foi em Melo. Uma pequena cidade uruguaia para onde eu voltaria muitas vezes.

Curiosamente, o que ficou guardado na minha memória infantil daquela cidade foram uns cavalinhos que havia numa calçada, como pequenos balanços. Provavelmente ficavam em frente a alguma tienda uruguaia. Não sei exatamente onde eram, nem se minha lembrança reproduz com fidelidade aquele lugar. Mas os cavalinhos ficaram.

Depois seguimos para Rocha, onde nos hospedamos em um hotel na praça central da cidade, local onde estive várias vezes para relembrar...

Hotel em Rocha 

E é de Rocha uma das lembranças mais curiosas daquela primeira viagem.

À noite, na praça em frente ao hotel, assistimos ao primeiro comício de nossas vidas. Eu, evidentemente, não compreendia o significado político daquele acontecimento. Mas alguma coisa daquela cena ficou registrada para sempre na memória da menina de três ou quatro anos.

Muitas pessoas reunidas e, numa só voz, um grito que atravessaria décadas e que ainda hoje consigo ouvir:

“¡El pueblo unido jamás será vencido!”

E a viagem seguia seu curso.

O destino seguinte era Punta del Este. E, ali,  há outra imagem que nunca desapareceu: uma avenida iluminada, de duas mãos, que encantava meu olhar infantil. Chamava-se Avenida Gorlero.

Eu ainda não sabia que aquele seria um nome que pronunciaria tantas e tantas vezes ao longo da vida, em muitas outras viagens ao Uruguai. Naquela primeira vez, Gorlero era apenas luz, movimento e encantamento aos olhos de uma criança.

Nossa hospedagem, porém, foi em Maldonado, em dois grandes quartos de um hotel na praça principal, chamado Galería 18. Das lembranças, recordo que os irmãos - mais velhos e crescidos - pulavam de uma sacada a outra para 'transitar' entre os quartos

Depois, dias passados, rumamos a Montevidéu.

Da capital uruguaia, minha memória daquela viagem está quase toda concentrada no entorno do monumento La Carreta. É curioso perceber como funciona a memória da infância: ela não guarda necessariamente os grandes acontecimentos, nem os lugares que os adultos considerariam mais importantes. Guarda cenas. Imagens. Luzes. Sons. Pequenos detalhes que, por alguma razão, permanecem conosco.

Mas, de toda aquela aventura, talvez nenhuma lembrança seja tão forte quanto a própria Rural.

Em especial, a “cachorreira”.

Meu pai colocou ali dois pelegos e aquele espaço se transformou, para nós, em uma espécie de território privilegiado da viagem. Eu e meus irmãos fazíamos rodízio para viajar ali, deitados sobre os pelegos, enquanto a Rural seguia pelas estradas uruguaias.

E havia os caramelos.

Coloridos, vendidos em grandes e compridos vidros, faziam parte daquele universo de novidades que o Uruguai apresentava aos nossos olhos de crianças. Íamos deitados na cachorreira, comendo caramelos, enquanto meu pai dirigia e a paisagem passava diante de nós. E, no retorno, houve parada na Fortaleza de Santa Teresa, local de tantas outras aventuras durante a juventude e a vida adulta. 

Passaram-se mais de cinquenta anos.

Eu voltei ao Uruguai muitas vezes. Punta del Este e Montevidéu deixaram de ser lugares desconhecidos, se tornaram comuns, a tal ponto de considerarmos, eu e meus filhos, que este destino nem é mais viagem. É como casa, mesmo não sendo. A  Avenida Gorlero tornou-se familiar. Jaguarão, Melo, Rocha e Maldonado ganharam outros significados. 

Mas aquela primeira viagem continua existindo em algum lugar muito particular da minha memória.

Talvez porque as primeiras viagens nunca sejam apenas viagens.

São também a descoberta de que existe um mundo para além daquele que conhecemos. E, quando somos crianças, esse mundo pode caber numa praça em Rocha, em cavalinhos numa calçada de Melo, nas luzes da Avenida Gorlero, num punhado de caramelos coloridos ou no aconchego improvisado de dois pelegos na cachorreira de uma Rural Willys.

Hoje, quando tento reconstruir aquela viagem, percebo que não me lembro apenas daquele Uruguai.

Lembro de nós. De mim, dos irmãos, e especialmente dos meus pais, pelo que proporcionaram a nós. 

Pai, mãe e cinco filhos, todos dentro de uma Rural Willys vermelha e branca, seguindo estrada afora.

E talvez seja essa a imagem que eu mais queira guardar: quando ainda cabíamos todos no mesmo carro — e a vida inteira parecia estar logo ali, pela frente.

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