O aguaceiro dos últimos dias, aqui em Pelotas, voltou a expor um problema que está presente de forma contínua nas ruas, calçadas, margens de estradas e logradouros, terrenos baldios e, com muita frequência, próximo aos canais e sistemas de drenagem da cidade, e que se agiganta em períodos chuvosos.
Estou a me referir sobre o descarte irregular de lixo e de
resíduos.
Quem circula por Pelotas certamente já se deparou com cenas
que, infelizmente, se tornam recorrentes: sofás abandonados em calçadas,
colchões deixados à beira de vias, restos de móveis, fogões, máquinas de lavar,
micro-ondas, pedaços de madeira, entulho de pequenas reformas e grandes volumes
de galhos provenientes de podas.
São objetos que deixam de ter utilidade dentro das
residências e, por algum motivo, passam a ser tratados como se deixassem de ter
qualquer destino quando colocados para fora delas.
E é justamente aí que surge um ponto central de reflexão: o
que sai de dentro de uma casa não desaparece, não deixa simplesmente de
existir. Ele apenas muda de lugar – sai do espaço privado e passa a ocupar o
espaço coletivo.
E, nesses períodos de chuva, como o que estamos enfrentando,
os efeitos desse mau hábito. Materiais descartados de forma inadequada são
arrastados pela água, chegam às bocas de lobo, valetas e canais, comprometem o
escoamento e podem atingir estruturas essenciais do sistema de drenagem e
bombeamento.
Seria, no entanto, simplificar a realidade afirmar que os
alagamentos decorrem exclusivamente desse fator.
Não decorrem.
Há limitações estruturais, capacidade insuficiente de
drenagem em determinados pontos, necessidade de manutenção constante, desafios
de planejamento urbano e, cada vez mais, a influência desses eventos climáticos
extremos vai colocando à prova todas essas circunstâncias, todos esses compõem
um cenário que exige uma ação contínua do poder público.
Mas, ao mesmo tempo, essa constatação não elimina a
importância das escolhas nossas escolas individuais, dos nossos comportamentos
cotidianos.
É legítimo exigir o funcionamento adequado das bombas, sim. É
legítimo reclamar do acúmulo de água, pela ausência da limpeza do espaço
urbano, sim. É necessário cobrar a limpeza dos canais, também é. É fundamental
demandar a manutenção das redes de drenagem, das bocas de lobo e das estruturas
de escoamento. Claro que sim. É indispensável reivindicar planejamento e
investimentos consistentes. Por óbvio.
Mas, paralelamente, cabe indagar como nós, individualmente,
interferimos nesse sistema.
Não é coerente esperar que a drenagem funcione plenamente
quando parte dela é obstruída por materiais que não deveriam estar ali. Não é
sustentável exigir canais desobstruídos enquanto espaços públicos são
utilizados como pontos de descarte. E não é consistente atribuir apenas às
chuvas os transtornos urbanos quando há elementos que agravam o próprio caminho
da água.
Nesse sentido, o tema também se relaciona com educação urbana
e convivência coletiva.
A cidade não se encerra nos limites da propriedade privada.
A calçada, a rua, o terreno vizinho e até o canal distante
fazem parte de um mesmo sistema urbano interligado.
O que ocorre em um ponto repercute em outro.
E quanto aos lixos, e aos descartes, Pelotas dispõe de locais
apropriados para o recebimento de diferentes tipos de resíduos.
Ampliar o conhecimento sobre esses serviços, facilitar o
acesso e fortalecer sua utilização são medidas essenciais para reduzir o
descarte inadequado.
Da mesma forma, a atuação do poder público na fiscalização e
na responsabilização de práticas irregulares é parte indispensável desse
processo.
Ainda assim, mesmo com estrutura e controle, nenhum sistema
se sustenta sem adesão social às regras de convivência.
Trata-se, portanto, de uma questão de consciência coletiva.
E há um aspecto particularmente sensível nesse cenário: os
impactos do descarte irregular raramente permanecem restritos a quem o pratica.
O sofá abandonado, os galhos deixados em local inadequado, os
resíduos de toda a espécie, eles se deslocam, são levados pela água, percorrem
trajetos e causam problemas em áreas distantes de onde foram jogados. E não
raro atingem pessoas que não tiveram qualquer participação na ação inicial de
descarte.
Por isso, é evidente que temos que superar a ideia de que o
espaço público é um território desconectado com as nossas escolhas individuais.
Os próprios eventos climáticos reforçam a realidade que é
existente, a de que vivemos em um sistema profundamente interdependente.
Assim, quando há episódios intensos de chuvas, é necessário
discutir infraestrutura, drenagem, equipamentos e investimentos, ações do poder
público, mas também é preciso observar as nossas práticas cotidianas que
influenciam esse cenário
Talvez este seja um momento oportuno para uma reflexão, para
além do período de chuvas.
Lembremos: a cidade não é administrada apenas pelo poder
público. Ela é vivida. Por todos. E por todos deve ser gerenciada.
O modo como ela funciona depende, em diferentes níveis, de todos nós. Afinal, cuidar da cidade é cuidar de quem nela vive, de todos que a habitam, inclusive aqueles que talvez nunca saibamos tenham sido afetados por nossas escolhas. Portanto, façamos os descartes de lixo e de resíduos nos locais adequados. A cidade agradece.




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