Neste sábado, escrevo de Florianópolis, onde participo, nos dias 4 e 5 de setembro, do CIAPE — Congresso de Inteligência Artificial para Profissionais da Educação.
Vim para aprender sobre Inteligência Artificial na Educação.
Mas, entre tantas coisas que estou levando comigo, uma delas não diz respeito
propriamente à tecnologia. Diz respeito à forma como aprendemos.
Tenho participado de workshops, minicursos e atividades
práticas. Escutamos, naturalmente. Mas também fazemos. Abrimos as ferramentas,
experimentamos possibilidades, construímos, testamos, erramos, corrigimos e
tentamos novamente.
E talvez tenha sido justamente isso que mais me chamou a
atenção.
Porque estou experimentando, como aluna, algo em que
acredito profundamente como professora: aprendemos melhor quando somos chamados
a fazer alguma coisa com aquilo que estamos aprendendo.
Ao longo de muitos anos na docência, participei — como
tantos professores — de inúmeras capacitações, treinamentos, palestras e
jornadas de formação. Algumas foram excelentes. Outras, porém, terminaram
exatamente onde começaram: ouvimos durante algumas horas, recebemos um
certificado e retornamos às nossas atividades fazendo praticamente as mesmas
coisas da mesma maneira.
Sem experimentação, sem aplicação e sem espaço para
transformar informação em prática, a formação corre o risco de se tornar apenas
mais uma atividade cumprida no calendário institucional.
E, semestre após semestre, ano após ano, novas capacitações
são realizadas, enquanto poucas mudanças efetivamente chegam à sala de aula.
Isso deveria nos fazer pensar.
Se defendemos que nossos estudantes precisam ser
protagonistas de sua aprendizagem, por que ainda admitimos que professores
sejam colocados tantas vezes na posição de espectadores de sua própria
formação?
No CIAPE, estou vivendo outra experiência. Estou ouvindo e
fazendo.
E isso faz diferença.
Estou aprendendo sobre Inteligência Artificial porque considero
que esse aprendizado já não é opcional para quem exerce a docência. A IA está
presente na universidade, na produção acadêmica, na pesquisa e, sobretudo, na
vida dos nossos estudantes. Ignorá-la não fará com que desapareça.
Por isso, penso que nossa tarefa não seja escolher entre
aceitar ou rejeitar a Inteligência Artificial. A questão mais importante é
outra: como aprender a utilizá-la de maneira ética, crítica, responsável e
pedagogicamente relevante?
Mas há uma diferença enorme entre usar IA para pensar menos
e usar IA para ampliar aquilo que conseguimos fazer com nosso pensamento e
nossa experiência.
Tenho me interessado especialmente pela segunda
possibilidade. E quanto mais a utilizamos, mais precisamos conhecer sobre
nossos saberes.
Neste congresso, por exemplo, forneci informações sobre
minha trajetória, minhas escolhas pedagógicas, aquilo em que acredito e a
maneira como compreendo a docência. A partir delas, construí, com auxílio da
IA, aquilo que foi chamado de meu “clone pedagógico”.
Confesso que foi uma experiência surpreendente.
Não porque uma máquina tenha descoberto quem eu sou. Não
descobriu. Eu sempre fui aquilo que ela desenhou pra mim.
Mas porque, ao organizar e relacionar aquilo que eu mesma
lhe forneci, a ferramenta devolveu uma representação bastante precisa de
princípios que fui construindo ao longo de muitos anos de sala de aula.
Foi quase como olhar para um espelho pedagógico.
Ali estavam ideias que reconheci imediatamente como minhas:
ensinar não é entregar respostas; aprender exige envolvimento; a dificuldade
não precisa ser eliminada, mas transformada em desafio intelectual; o estudante
precisa compreender, aplicar, decidir e justificar; e a função do professor não
é criar dependência, mas desenvolver autonomia.
A IA não criou essas convicções. A experiência docente as
construiu.
Mas a tecnologia me ajudou a organizá-las, explicitá-las e
enxergá-las em conjunto.
Também comecei a transformar minha agente de Inteligência
Artificial em uma ferramenta mais alinhada ao meu modo de ensinar, pensar e
produzir. E isso abre possibilidades que ainda estou descobrindo.
Talvez esteja aí uma das questões mais interessantes deste
momento.
Depois de tantos anos ensinando, encontro uma tecnologia
nova que não me obriga a abandonar aquilo em que acredito. Ao contrário: quando
utilizada com critério, ela pode me ajudar a fazer melhor justamente aquilo que
sempre considerei essencial.
Não quero uma Inteligência Artificial que dê respostas aos
meus alunos.
Quero aprender a utilizá-la para criar perguntas melhores.
Não quero que ela elimine o esforço intelectual.
Quero utilizá-la para construir experiências que exijam mais
reflexão, comparação, decisão e argumentação.
Quero compreender como ela pode liberar o professor de
determinadas tarefas para que ele tenha mais tempo para exercer aquilo que
nenhuma ferramenta deveria retirar de suas mãos: o critério pedagógico.
E talvez essa seja, até aqui, minha principal aprendizagem
neste congresso.
Estamos diante de uma tecnologia poderosa. Precisamos
conhecer suas limitações, discutir ética, autoria, proteção de dados e
responsabilidade. Precisamos aprender a utilizá-la e também a ensinar nossos
estudantes a fazê-lo criticamente.
Mas precisamos, sobretudo, continuar sendo professores.
Curiosamente, estou aprendendo tudo isso da maneira em que
mais acredito.
Ouvindo, sim.
Mas também fazendo.
Experimentando.
Pensando sobre o que fiz.
E voltando a fazer de outro modo.
Talvez seja uma boa lembrança para a formação docente em
tempos de Inteligência Artificial — e também para qualquer sala de aula:não
basta colocar alguém diante do conhecimento e esperar que a aprendizagem
aconteça.
É preciso criar condições para que esse conhecimento seja
experimentado, interrogado, aplicado e transformado.
Porque aprender, afinal, continua sendo uma atividade
profundamente humana.

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