Todos nós somos, em alguma medida, contraditórios. E uma contradição muito comum nas relações humanas é a facilidade com que somos capazes de identificar, criticar e condenar comportamentos alheios sem perceber que reproduzimos as mesmas atitudes.
Isso é bastante perceptível quando observamos que certas condutas
adquirem, em nós, significados diferentes a depender de quem as pratica. Quando
é o outro quem age — ou um determinado "tipo" de outro —, censuramos,
nos indignamos, julgamos e até condenamos. Todavia, quando somos nós, ou alguém
que nos seja caro, opomos explicações, atenuações e justificativas que buscam
tornar compreensível e palatável aquilo que antes considerávamos inaceitável.
É recorrente notarmos isso, e não apenas em grandes questões
éticas ou morais. Em pequenas atitudes cotidianas — palavras pronunciadas ou
silenciadas, omissões, ausências e cobranças —, depositamos sobre os demais
expectativas a que não nos submetemos, ou ao menos não sob os mesmos critérios.
Enfim, somos hábeis em reconhecer incoerências alheias, mas raramente admitimos
as nossas.
É muito mais simples olhar para fora do que para dentro. Esse
olhar interior exige um exercício de honestidade e autocrítica que nem sempre
estamos dispostos a realizar.
Todavia, vale dizer que reconhecer essa tendência não significa
deixar de observar ou apontar condutas que consideramos inadequadas. A reflexão
crítica é imprescindível. O problema se apresenta quando nos colocamos numa
posição de superioridade moral, tornamo-nos excessivamente tolerantes com
nossas falhas e esquecemos que as réguas que utilizamos para avaliar o próximo
também precisam ser aplicadas a nós mesmos.
Em síntese: quantas vezes aquilo que tanto nos incomoda no
comportamento de alguém também está presente nas nossas próprias atitudes,
ainda que sob outras formas?
Reconhecer nossa vulnerabilidade diante dessas contradições é o
primeiro passo para desenvolvermos uma postura mais consciente. Antes de
apontar o dedo, é sempre prudente buscar o espelho e nos enxergar, lembrando
que a verdadeira coerência está em aceitar, para nós, os mesmos critérios de
julgamento que exigimos dos demais.

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