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domingo, setembro 8

533 DIAS DE ESPERA: enfim, o julgamento da gaúcha na Espanha

O universo de Bruna

Por Fernanda Zanuzzi,


Após 533 dias presa em Barcelona, na Espanha, a nutricionista gaúcha Bruna Bayer Frasson, 26 anos, finalmente começa a ser julgada nesta segunda-feira por “atentado contra a saúde pública”. Bruna foi detida em 23 de março de 2012, ao ser flagrada com três quilos de cocaína no porto da capital catalã, onde desembarcava para desfrutar de um dia de folga como trabalhadora do navio Costa Victoria, da armada italiana Costa Crociere.

Segundo a declaração judicial do seu ex-namorado, também tripulante do barco e preso no mesmo momento, a droga foi introduzida por ele na sua mochila sem que ela soubesse. No momento do julgamento, Bruna terá cumprido, em prisão preventiva, um quarto da pena sugerida pela promotoria, de sete anos e nove meses. Esse tempo é suficiente para que condenados pela Justiça espanhola passem ao regime de prisão aberto.

O julgamento, coletivo, será acompanhado por representantes da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, do Consulado Brasileiro em Barcelona e pelo secretário de Justiça e Direitos Humanos do Estado, Fabiano Pereira. As autoridades brasileiras apoiaram o pai de Bruna, o empresário Alexandre Frasson, nas negociações que pleiteavam que ela esperasse o julgamento em liberdade. Depois de seis reuniões diplomáticas e diversos recursos jurídicos, o direito foi negado, e, em junho de 2013, o julgamento de Bruna ainda não tinha data marcada.

Desde então, a família decidiu tornar a causa pública e reuniu mais de 5 mil assinaturas em uma campanha nas redes sociais e na comunidade de mobilização online Avaaz para denunciar “a máfia dos cruzeiros, a violação de direitos humanos nos navios e para defender os brasileiros desamparados no exterior”. Segundo o Itamaraty, a Espanha conta com o maior número de brasileiros presos na Europa: 362. Em todo o mundo, são 3.078 detidos – a maioria mulheres envolvidas em tráfico de drogas.

A história de Bruna não é única, mas é paradigmática. Nesta entrevista, realizada no Centro Penitenciário de Mulheres de Barcelona Wad Ras, em uma pequena sala de vidro situada no saguão que dá acesso aos módulos e ao pátio, ela explica como enfrenta a situação que mudou a sua vida. Um pouco ressabiada, mas sorridente e com olhar tranquilo, Bruna quis saber mais sobre a entrevista, e se eu já conheci o seu pai, que está em Barcelona. Antes da primeira pergunta, ela começa a relatar:

– Essas coisas que a gente vê na TV e pensa: “Que duro, né? Como deve ser? E aconteceu isso com alguém? E se acontecesse comigo? Mas agora está acontecendo e estou sobrevivendo. A gente sobrevive a tudo. Aqui dizem que o ser humano é um animal de costumes. Se acostuma a tudo. 

Quando fiz a faculdade, meu professor de fisiologia sempre dizia que o corpo se acostuma a tudo, menos à dor. Mas as pessoas também se acostumam à dor. Se acostumam a sentir dor e vão se tornando mais duras. Espero sair logo daqui, mas acho que esses quase dois anos me fizeram crescer muito, melhorar como pessoa. O meu tutor diz que eu criei um universo paralelo, e que não tenho noção de que estou presa. E é verdade, eu acho que, como ser humano, eu vou conseguir sair melhor. Isso é incrível, mas eu acho que consegui encontrar aqui um equilíbrio.

Entrevista: 533 DIAS DE ESPERA
“Se eu venci aqui, onde não vou conseguir?”

Apesar das queixas contra as autoridades judiciárias espanholas, Bruna aproveitou a rotina da instituição penal para ser útil e descobrir o talento para as artes. Veja trechos da entrevista:

Zero Hora – Como é a sua rotina em Wad Ras?
Bruna Bayer Frasson – O centro está organizado em cinco módulos: Ingressos (Entradas), Enfermagem, Polivalente ou Residencial, Mães e Preventivas. Quando alguém chega passa os três primeiros dias em Ingressos, se habituando a horários: pela manhã, contam quantas pessoas há dentro do quarto, e daí a porta já fica aberta para fazer as atividades previstas. Às 7h30min abrem a porta. De Ingressos passei para Preventivas, onde fiquei só o primeiro mês. Em dois anos, quase dois anos, minha rotina mudou bastante. Eu tinha muito medo de todo mundo, eu nem olhava para as pessoas. Eu só lia. No primeiro mês, li trinta livros. Não falava com ninguém. Não conseguia dormir, pensando, então eu preferia ler a ficar chorando ou pensando. Era obrigada a descer para o pátio, e eu sempre estava lendo. Passava muito tempo na biblioteca. Conheci o bibliotecário, Luis, e comecei a trabalhar na biblioteca, pela tarde. No primeiro mês, já estava trabalhando – para te dar um trabalho aqui, demoram normalmente uns seis meses. Também comecei a fazer um curso no salão de beleza. Aprendi a cortar e a fazer chapinha. E logo me subiram para o Residencial, onde estão as pessoas com bom comportamento.

ZH – E atualmente você é uma das responsáveis pela cozinha.

Bruna – Dou entrada em todas as notas fiscais, organizo o que entra e o que vai sair. Desde o custo, que não pode passar de 3,90 euros por pessoa para as três refeições, por dia. E eu tenho que manter esse custo, organizar o menu (...) Aqui, juntam-se todas as nacionalidades possíveis e imagináveis: as africanas que só querem comer a sua comida, por exemplo. O orçamento é muito pequeno, as nacionalidades são muitas. Escuto reclamação desde a hora em que acordo.

ZH – Que outras atividades você faz?

Bruna – Passo todas as manhãs na oficina de artes plásticas. Agora, a gente está em período de férias escolares. Antes, eu estava fazendo uma pós-graduação por internet, pela Universidade de Barcelona, em Nutrição Comunitária. É uma pós-graduação à distância, de um ano. Como agora não tenho internet, porque a sala está fechada, acabo passando toda a manhã no ateliê de artes plásticas. Mas eu dividia minha manhã entre a pós e a pintura, e pela tarde trabalho na cozinha e informática, onde eu podia escrever cartas para me comunicar com a família e escutar alguma música nossa, MPB que eu adoro. Eu nunca vou ao pátio. É o lugar onde eu mais me sinto no cárcere. Esse lugar me faz muito mal, eu nunca vou ao pátio. E nunca estou no quarto. Só para  dormir.

ZH – Você divide o quarto com quantas pessoas?

Bruna – Somos seis, em um espaço muito pequeno. A gente mediu outro dia, tem mais ou menos 3 metros por 1,5 metro. Eu sou uma das poucas que já estão aqui há dois anos, e sou a única que tem uma cama há um ano e meio. Tem uma brasileira no meu quarto, e também uma senhora colombiana, de uns 60 anos ou mais. Como já estou aqui há tanto tempo, as pessoas associam como minha casa. O espaço é um problema muito forte. Mas eu não tenho problema de convivência, não tenho manias. (...) E no residencial temos muito mais liberdade que as outras internas. Parece um colégio interno, não uma prisão. Eu acho que eu entrei nesse universo paralelo por isso.

ZH – Como é a sua relação com as outras internas?

Bruna – Comecei a estudar muito sobre prisões e cheguei à conclusão de que nenhuma reabilita ninguém. Uma pessoa que não tem uma base familiar boa, que está envolvida em alguma drogadição, é muito difícil que saia. Sai e volta. Mas tem muita gente que, antes de entrar aqui, não tem noção do que é isso. A maioria das pessoas com quem eu convivo está acusada de delito contra a saúde pública, que é tráfico. A maioria é mula. Essas pessoas não têm noção de que é um crime. A maioria das brasileiras, por exemplo, estava em um momento em que precisava muito de dinheiro: um filho estava doente, perdeu o trabalho, e pensou, vou fazer isso pra sair dessa merda. O tráfico é um dinheiro muito fácil. É um ciclo vicioso. Tem muita diferença entre quem tem uma família por trás e quem não tem. Tenho claro que não posso sair daqui e manter contato com alguém que trabalha com isso. Tem gente por quem eu tenho muito carinho, mas eu não quero estar aqui de novo.

ZH – O seu trabalho artístico, desenvolvido aqui dentro, foi premiado em duas ocasiões, e você inaugura uma exposição individual em uma galeria no centro de Barcelona. Como você define seu trabalho?

Bruna – Quando eu estava nessa fase da adolescência, tentando escolher universidade, o pai me deu muito apoio para fazer Artes Plásticas. Mas eu tinha tanto medo! O artista no Brasil – no mundo inteiro – é tão desvalorizado. Pensei, não posso fazer uma universidade e correr o risco de depender da minha família. Eu sempre gostei da área da saúde, também, e acabei fazendo Nutrição. Aqui, entrei no ateliê de pintura porque eu precisava de um espaço para estudar. O monitor de artes me ofereceu a sala, porque normalmente as pessoas estão pintando em silêncio. Hoje eu estudo na sala de estudos de Ensino Médio. Mas, quando vi, eu já estava em pintura. Dividi a manhã entre a pintura e estudar. Aprendi a fazer retratos e óleo. Meu  primeiro quadro a óleo acabou ganhando um concurso.

ZH – Você escolheu algum tema para a exposição?

Bruna – Decidimos apresentar um pouco de tudo. A exposição foi uma proposta da monitora de fotografia, a Francesca Nocivelli, e do monitor de artes plásticas do centro, o Abel. Ela se interessou por mim, se informou sobre o meu caso, ofereceu ajuda. (...) Eu pinto muito mulheres, eu adoro mulheres: o rosto, fotografia, eu faço muito esse trabalho de retrato. E me perguntam por que elas são tristes. Eu tenho dois sorrisos em dois anos trabalhando! Eu não sei se eu sou isso ou se é porque eu estou aqui.

Pintar me ajudou a sofrer menos”

ZH – A pintura também tem um lado terapêutico pra você?

Bruna – Muito! Com tudo isso que me aconteceu, eu nunca tive pesadelos, sempre dormi bem. (...) Acho que pintar me ajudou a sofrer muito menos. Tenho muito medo de ficar com um trauma. (...) Uma coisa que me aterroriza aqui é o barulho das chaves. Quando tu escutas o barulho de chaves, sabes que está vindo um funcionário. Pela manhã, eles abrem a porta para fazer a contagem, e eu acordo com o barulho de chaves, eu vou dormir com o barulho de chaves, e sei que alguém está chegando, e tenho que cuidar o que estou fazendo ou falando, para não ser mal interpretada e punida.

ZH – Você tem planos para seguir com a arte?

Bruna – Não sei o que vai ser do meu futuro, é muito difícil planejar um futuro. Tem que planejar umas cinco opções, porque tu não sabe o que vai acontecer.

ZH – O que mais te ajudou a adquirir autoconfiança?

Bruna – Tudo me ajudou, a situação em si. Eu sempre fui boa aluna, tenho um jeito carinhoso, e às vezes eu não sabia se eu conseguia as coisas pelo meu jeito, porque as pessoas iam com a minha cara. Eu sempre tive essa insegurança: o quanto era meu e o quanto eu fiz por merecer. Mas se eu conseguir vencer aqui, onde eu não vou conseguir? É um lugar bastante duro. E, às vezes, eu penso: Bruna, que feio, vencer aqui! Claro que tu vais vencer aqui! És uma das poucas pessoas que tem uma base familiar, estudo. Mas eu consegui por mérito: eu tenho um trabalho de confiança, sou muito respeitada pelas pessoas.Não tento provar a minha inocência pra ninguém, porque isso a gente vai ver no julgamento. No começo, eu chorava e dizia que eu não fiz isso, que eu tenho que sair daqui. Demorei uma semana para tirar minhas roupas da sacola que me deram, porque todo dia eu esperava que alguém me chamaria, me tiraria daqui. Depois de uma semana, eu tirei as coisas da sacola e pensei: em um mês eu vou embora. E cada vez eu fui aumentando esse tempo. Depois de um mês, seis meses. Em seis meses vou aprender tudo o que tenho que aprender, aproveitar tudo de positivo, e depois vou embora. Depois de seis meses, um ano. Quando fez um ano, eu disse: cinco, vou colocar o período de cinco anos. Meu tutor me perguntava como eu conseguia estar sempre tão bem, e eu dizia: é um dia a menos de cinco anos. Isso tudo me deu confiança. Eu ganhei a confiança dos funcionários também, porque a maioria pensa que eu sou uma delinquente, como todas as pessoas que estão aqui. Mas por algum motivo, confiam em mim. Acho que é uma vitória ganhar a confiança de alguém.

ZH – Em junho deste ano, você e sua família decidiram tornar o seu caso público. Por que essa decisão?

Bruna– Eu criei um universo paralelo, e sou consciente disso. Eu confio muito no meu pai e na mãe. O pai sempre foi muito guerreiro, e desde que entrei aqui ele buscou gente que pudesse me ajudar. E sempre houve essa alternativa. Mas ele nunca quis fazer público. O dia em que ele me perguntou se eu queria, eu disse que ele era quem podia avaliar melhor. (...) Claro que eu tinha medo, eu tenho muito medo de chegar no Brasil e encontrar com um monte de gente. Eu não tenho vontade de falar sobre isso com ninguém, eu não tenho vontade de dar explicação, eu tenho medo de ser olhada na rua. Eu pensava: não quero ser apontada, que falem de mim. Eu preciso conseguir um trabalho, e tenho que sentar e estar no mesmo nível que as outras pessoas que estão tentando conseguir esse trabalho. Se a pessoa que está me entrevistando sabe que fui presa, até que ponto ela vai avaliar isso ou não, negativamente? Mas, eu disse pra ele, eu confio plenamente em ti. Depois, pensando com mais calma, dá na mesma (...) As pessoas gostam de notícia, gostam de fofoca, e depois esquecem.

ZH– Essa publicidade conseguiu trazer para o seu julgamento uma comitiva e está tornando público um tema muito mais amplo, a exploração do trabalho e os crimes cometidos em navios de luxo. Como você vê isso?

Bruna – O barco é pior do que estar aqui. Trabalhava 15 horas, dormia quatro horas, quando dormia muito, e não são nem quatro horas seguidas, porque o teu turno de trabalho às vezes é de sete horas de trabalho, uma hora de descanso, oito horas, uma hora de descanso. Nem as tuas quatro horas de sono são seguidas. Quando eu começo a contar, penso: por que eu passei por isso? Por que alguém passa por isso? Não sei. (...) Nos navios, muita gente usa uma droga chamada cristal, que permite ficar acordado durante três dias seguidos, e muito ativo, que é o que tem que ser para um navio.

ZH –A sua intenção é seguir denunciando essa situação?

Bruna– Eu, agora, tento não ter muito acesso sobre o que está saindo. Espero que ajude a muita gente, o que aconteceu comigo. É uma denúncia que devia ter sido feita antes. Acontece muita coisa feia aí, as pessoas vivem com medo dentro de um barco. Mulheres são estupradas, apanham. São muitas nacionalidades, e algumas culturas ainda mais machistas do que a nossa. A menina não denuncia porque tem medo de sofrer alguma punição, represália.

ZH – A sua defesa tentou conseguir que você esperasse o julgamento em liberdade, havia uma família que te receberia e diversas garantias legais. Mas esse direito foi negado pela justiça espanhola. Por quê?

Bruna – Meu pai demonstrou que poderia me ajudar economicamente. A família daqui me oferecia trabalho. A justificativa do juiz foi que eu cheguei do Brasil para embarcar em um navio na Grécia, falo inglês, e demonstro uma grande capacidade de locomoção internacional. O que significa que eu fugiria facilmente do país!

ZH – O seu julgamento começa no dia 9. Como se sente?

Bruna – Uma coisa que eu aprendi aqui é que tudo chega. A hora de sofrer vai chegar. Eu posso ser condenada, e nessa hora eu vou chorar o que eu estiver sofrendo. Uma coisa que eu tenho de casa é que a gente brindava sempre por uma coisa boa que aconteceu durante o dia. O dia tem 24 horas e sempre acontece alguma coisa boa. Meu pai sempre lembra o ditado “fazer do limão uma limonada”. A gente tem que tomar limonada! E é isso: o julgamento, segunda-feira começa. E se for mal, eu começo a chorar na segunda-feira. Minha debilidade é minha família. Enquanto eles estiverem bem, eu estou bem. Agora, ver o pai mal? Eu acho que ter meu pai no julgamento vai ser difícil. Não queria que ele passasse por isso. (...) Eu penso fazer universidade aqui, se eu tiver que ficar. Eu não tenho trauma com a Espanha. (...) Não quero essa seja a minha última experiência na Espanha. Quem sabe com esse trabalho da exposição? Talvez no Rio Grande do Sul eu seja nutricionista, e na Espanha, uma artista.



Um comentário:

Arnaldo Huttner Jr. disse...

Lendo esta postagem (fui atras de + detalhes, entao acabei "parando aqui"), sobre a situacao dessa brasileira, tenho a nitida impressao (e foi por isso que busquei + noticias) que realmente sao poucos os que cometem um ERRO e aprendem e MUITO com isso, transformando num "outro" caminho para se superarem e evoluirem com sua escolha errada!